Fofuras da Kah

Depois daquele último “eu entendo” foi como se o meu sinal de fumaça digital estivesse debaixo de uma chuvarada. Nada. Nenhuma mensagem. Meu WhatsApp estava oficialmente morto. Como pode um iconizinho verde ser movido por uma pessoa em questão? Minha conversa com as amigas? Nada. Os 14 grupos que faço parte? Silenciosos. As correntes que a vovó costumava me enviar toda manhã pontualmente na hora do café? Muito menos. Era quase como se eu tivesse sido banida da maior rede de comunicação da história, depois das cartinhas trocadas em sala de aula. Eu me sentida sobretudo, sozinha. No ônibus de volta para a casa depois de 6 horas na companhia de 40 jovens que disputariam comigo em poucos meses o meu futuro como engenheiria florestal, passei a observar a vida online das pessoas. Pessoas que of-line são tão sozinhas quanto eu no mundo digital, que como a lua, observo tudo o que está acontecendo “de fora” da Terra.
Um senhorzinho de 80 e poucos anos vestindo uma calça caqui, uma camisa xadrez e um gorro dos tempos em que nevou pela primeira e última vez em São paulo, estava com um iPhone aparentemente dois modelos mais novo que o meu, e pelo o que eu consegui enxergar algumas boas mensagens a mais do que eu. Como pode? Um homem com idade para ser meu avô ter uma vida online muito menos frustrada do que a minha. Oito filhos, onze netos, dezessete bisnetos e um tataraneto a caminho, só pode ser. Ou eu havia me tornado uma fantasma cibernética ou a garota de 19 e talvez algumas poucas mais primaveras havia desenterrado o cemitério todo. Sentada na minha frente ela digitava impacientemente como se estivesse a falar frenéticamente com força dos seus dedos tudo o que estava engasgado na garganta. Namorado, pressumi. Alguém escrito “Amor” na etiqueta de identificação não pode ser um mero crush da padaria, ninguém menos do que um parceiro de relacionamento, de vida, de discussão e aparentemente de whatsApp.
Será então que o tão queridinho zap zap é como uma partida de tênis? Precisa-se de dois para jogar? (ou melhor para digitar?). Encafufei com essa ideia e só fui deixa-lá de volta na caixolá quando a bateria do mobile se deu por fim. Afinal trocar mensagens com nós mesmos é nada mais nada menos do que pensar, certo? Deve ser….
Acordei na manhã seguinte com a ávida vontade de checar minhas notificações na tela principal do meu baby. Quatro comentários no face, três lembretes de prova, dois screenshots, um tweet, e nada, zero mensagens de texto. Eu estava aparentemete em uma ilha onde o meu sinal de fumaça fazia sinal para o nada. Ótimo. Agora solteira, singular e simples! Sem confusões de contatinhos, grupos ou mensagens de bom dia dos 5 grupos da familia. Eu estava finalmente livre. Até porque melhor morar no próprio coração e na própria rede de wi-fi do que morar de favor em corações e conversar alheias. E já que eu estava finalmente só, e já que estava passando por uma faze sem sinal, por que não aproveitar a vista da minha ilha privativa?

                                                                                                🌸🌵✨

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