Fofuras da Kah

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Passei boa parte da minha vida (para não dizer quase toda ela) pensando em qual título ela levaria caso fosse um filme. Pensei em vários, e ao mesmo tempo em nenhum. Tal atividade funcionava em pensar em filmes já existentes, e tentar os correlacionar com o enredo do (meu)momento presente. Não funcionou. Nunca funcionaria. É a mesma coisa que pensar “de qual filme é essa música”. Na maior parte delas, as músicas são autorias idependentes, sem ligação cinemalesca, as quais acabamos por ligar aos longas que por mera ou total conhecidência acabam as usando.
Mas muito maior do que isso. Tentar titular com base em um dia -ou um momento- da minha vida, seria como dar nome a uma foto, ou um poster, de uma dramaturgia, muito mais complexa. Uma vez um professor (e amigo) me disse que os romances -agora creio que em ambos os sentidos- são como os filmes, e os contos como uma fotografia. E nesse processo aprendi que os filmes (vamos pensar em vídeos em geral, e como eram feitas as primeiras animações) seriam como uma coletânea de fotografias. Ambos tanto os filmes, quanto as fotografias retratam a mesma história, porém de panorâmas bem diferentes.
Por isso é impossível titular a vida, enquanto é vivida. Por isso não se dá nome a histórias de amor, até que elas terminem. As pessoas traçam e escrevem suas próprias histórias, mas dentro delas vivem outras, e mais outras, e isso é o bom da vida. Diferente do processo de uma redação, começar pelo título não está dentro de uma das nossas alternativas.
Já parou pra pensar que só se nomeia e estuda um tempo histórico, ou uma vanguarda artística depois que ele termina? Isso porque se estuda (e se nomeia) as particularidades dentro das singularidades que formam as coletividades. Por isso (e essa é uma palavra que você vai ler muito por aqui) que só agora consegui dar um nome a nossa história, a qual seria: Sentimentos legendados.

Até mais ver terráqueos!

xoxo

                                                                                                🌸🌵✨

Eu tinha que seguir em frente sem olhar para trás, vivendo apenas o presente, esquecendo do passado e sonhando com o futuro, nada muito além dos clichês que a gente sempre vê nos filmes de Hollywood.
Demos mais alguns passos e logo estávamos na beira da estrada. Senti o corpo molhado de Anne contra o meu. Ela sim foi uma grande amiga. Eu sabia que aquela era minha deixa, e nossa despedida. Retribuí o abraço sem dizer uma palavra, somente comtemplando meus pensamentos, e deixando as frias gotas de chuva escorrerem sobre meu rosto e se misturarem as minhas lágrimas. Me afastei um pouco de minha melhor amiga, e de longe avistei o ônibus que pegaria para chegar a São Paulo. Me despedi pela última vez apenas dando as costas para todo aquele circo que eu havia montado. Até que para quem nunca gostou de grandes confusões, eu tinha me virado com maestria naquele cenário dantesco.

Depois de longos 60 segundos que mais pareceram durar horas, finalmente subi no ônibus, e dei um passo adiante na busca pelo meu sonho. Sentei no último banco, apesar da maioria dos assentos estarem vazios. Passei a olhar para a paisagem noturna, que não passava de sombras na escuridão, ou uma versão marinada do que tava flutuando em minha mente. Aos poucos fui pensando em tudo o que tinha sido feito até aquele determinado ponto: minha fuga, meu sonho, Anne encrencada por bom tempo, John metido em sérias consequências por minha causa….. é tinha sido um baita de um lacre. Tudo isso, simplesmente porque a partir daquele dia, eu seria simplesmente eu. E quando me dei de conta já tinha adormecido.

Quando acordei, alguns pesadelos depois, o barulho da chuva já não embalava mais meus pensamentos, e pela primeira vez em muito tempo, pude dormir por mais de 4 horas. Olhei pela janela e pensei comigo mesma “foi tudo por uma boa causa, foi tudo por uma boa causa”. Finalmente tomei coragem e tirei o celular de dentro da mochila. Era quase como se aquele pequeno projeto de R2D2 tivesse se tornado um destróier que poderia vir a explodir a qualquer instante (bem como uma boa estrela da morte depois de uma visita Jedi). Ao apertar o botão principal, enxerguei algumas notificações na tela.

-Alarme: Bom dia Cinderela

– Você possui 32 chamadas perdidas

– “Agora chegou o Blah, por apenas R$2.99 por semana…”

-WhatsApp 5 horas atrás

Mamis: Não sei que raio você tinha na cabeça, mas…

-WhatsApp 6 horas atrás

Papai: Filha pelo amor de Deus, volta pra casa, sua…

-WhatsApp 9 horas atrás
John: amor
John: porra eu n posso mais te chamar de amr pq vc resol….
John: fds, é o seguinte. Seu pai acha que foi minha ide…

-WhatsApp 15 horas atrás:

Anne: tô aqui embaixo. Que a força esteja conosco miga

Não ia ligar, e muito menos responder. Simples assim. Eu sabia muito bem que aquilo iria acontecer, que por um momento eles iriam me fazer sentir remorso por ter fugido de casa, mas eu simplesmente não iria dar satisfações, não pelo menos pelos próximos sete dias. Minha fuga na época me pareceu como uma compra feita online que vinha com o prazo de 7 dias para troca caso a “situação” não servisse. Engraçado, agora acho que os caras e as ofertas de emprego deveriam vir com a mesma opção.
Desembarquei na estação Jabaquara, quase que por obrigação. Comprei alguns passes de metrô, e fui em direção ao terminal da linha Ana Rosa.

(Mais um texto ~antigo por sinal~ escrito em  um momento de desabafo literário, com verdades sinceras de situações imaginárias!)….

Até mais ver terráqueos!

xoxo

                                                                                                🌸🌵✨

Depois daquele último “eu entendo” foi como se o meu sinal de fumaça digital estivesse debaixo de uma chuvarada. Nada. Nenhuma mensagem. Meu WhatsApp estava oficialmente morto. Como pode um iconizinho verde ser movido por uma pessoa em questão? Minha conversa com as amigas? Nada. Os 14 grupos que faço parte? Silenciosos. As correntes que a vovó costumava me enviar toda manhã pontualmente na hora do café? Muito menos. Era quase como se eu tivesse sido banida da maior rede de comunicação da história, depois das cartinhas trocadas em sala de aula. Eu me sentida sobretudo, sozinha. No ônibus de volta para a casa depois de 6 horas na companhia de 40 jovens que disputariam comigo em poucos meses o meu futuro como engenheiria florestal, passei a observar a vida online das pessoas. Pessoas que of-line são tão sozinhas quanto eu no mundo digital, que como a lua, observo tudo o que está acontecendo “de fora” da Terra.
Um senhorzinho de 80 e poucos anos vestindo uma calça caqui, uma camisa xadrez e um gorro dos tempos em que nevou pela primeira e última vez em São paulo, estava com um iPhone aparentemente dois modelos mais novo que o meu, e pelo o que eu consegui enxergar algumas boas mensagens a mais do que eu. Como pode? Um homem com idade para ser meu avô ter uma vida online muito menos frustrada do que a minha. Oito filhos, onze netos, dezessete bisnetos e um tataraneto a caminho, só pode ser. Ou eu havia me tornado uma fantasma cibernética ou a garota de 19 e talvez algumas poucas mais primaveras havia desenterrado o cemitério todo. Sentada na minha frente ela digitava impacientemente como se estivesse a falar frenéticamente com força dos seus dedos tudo o que estava engasgado na garganta. Namorado, pressumi. Alguém escrito “Amor” na etiqueta de identificação não pode ser um mero crush da padaria, ninguém menos do que um parceiro de relacionamento, de vida, de discussão e aparentemente de whatsApp.
Será então que o tão queridinho zap zap é como uma partida de tênis? Precisa-se de dois para jogar? (ou melhor para digitar?). Encafufei com essa ideia e só fui deixa-lá de volta na caixolá quando a bateria do mobile se deu por fim. Afinal trocar mensagens com nós mesmos é nada mais nada menos do que pensar, certo? Deve ser….
Acordei na manhã seguinte com a ávida vontade de checar minhas notificações na tela principal do meu baby. Quatro comentários no face, três lembretes de prova, dois screenshots, um tweet, e nada, zero mensagens de texto. Eu estava aparentemete em uma ilha onde o meu sinal de fumaça fazia sinal para o nada. Ótimo. Agora solteira, singular e simples! Sem confusões de contatinhos, grupos ou mensagens de bom dia dos 5 grupos da familia. Eu estava finalmente livre. Até porque melhor morar no próprio coração e na própria rede de wi-fi do que morar de favor em corações e conversar alheias. E já que eu estava finalmente só, e já que estava passando por uma faze sem sinal, por que não aproveitar a vista da minha ilha privativa?

                                                                                                🌸🌵✨

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